Criar personagens é uma das tarefas mais importantes e desafiadoras para escritores, roteiristas e qualquer pessoa que trabalhe com narrativa. No entanto, é comum que, mesmo sem perceber, caiamos em clichês e preconceitos que enfraquecem a história e perpetuam estereótipos.
Neste texto, vamos explorar estratégias para construir personagens mais autênticos, complexos e livres de preconceitos, valorizando a diversidade e a originalidade.
O que são clichês e preconceitos em personagens?
Clichês são características ou situações repetitivas, previsíveis e pouco originais. Um personagem clichê pode ser, por exemplo, o “vilão malvado sem motivo”, o “herói perfeito e invencível” ou a “donzela em perigo”. Esses tipos muitas vezes reduzem a profundidade e o interesse da narrativa, além de cansar o público.
Preconceitos, por sua vez, envolvem julgamentos e estereótipos baseados em características como raça, gênero, classe social, orientação sexual, idade, entre outros. Personagens construídos com preconceitos podem reforçar ideias erradas e até causar danos reais ao reforçar discriminações existentes na sociedade.

Pesquise e compreenda a diversidade
Antes de criar personagens, é fundamental estudar e entender a diversidade humana em suas múltiplas dimensões. Ler livros, assistir documentários, conversar com pessoas de diferentes origens e experiências, além de buscar fontes confiáveis, ajuda a evitar generalizações e estereótipos.
Por exemplo, ao criar um personagem de um grupo étnico ou social diferente do seu, evite assumir características superficiais baseadas apenas em aparência ou costumes popularizados. Procure entender as particularidades culturais, os desafios e as histórias de vida reais.
Evite a simplificação excessiva
Personagens complexos possuem qualidades, defeitos, desejos, medos e contradições. Uma maneira de fugir de clichês é construir personagens multidimensionais, que não se resumem a uma única característica ou papel.
Por exemplo, uma personagem feminina não precisa ser apenas uma “mocinha indefesa” ou uma “feminista radical”, ela pode ser ao mesmo tempo forte, sensível, insegura, corajosa e cheia de nuances, assim como qualquer pessoa real. Essa abordagem enriquece a narrativa e torna a identificação da personagem com o público mais genuína.

Questione seus próprios preconceitos
Todos carregamos algum tipo de preconceito. Por isso, é importante fazer uma autoavaliação antes de criar personagens. Aqui estão alguns questionamentos que podem ajudar:
A. Sobre contexto social e diversidade:
– Estou reduzindo meu personagem a uma única característica (por exemplo, “a mulher forte”, “o homem sensível”, “o vilão ganancioso”)?
– A identidade do personagem (gênero, etnia, classe social, orientação sexual, deficiência etc.) é retratada de forma respeitosa e natural ou como um “diferencial exótico”?
– Estou reduzindo um grupo social a um arquétipo ou romantizando sua dor?
– A vivência do meu personagem é mostrada a partir do ponto de vista dele ou filtrada pelo meu próprio olhar?
– A inclusão desse personagem é orgânica ou feita apenas pela sua representatividade (“tokenismo”)?
B. Sobre a narrativa:
– Se eu inverter gênero, etnia ou orientação sexual desse personagem, a história ainda faz sentido? Se não, por quê?
– O arco desse personagem reforça ou questiona problemas reais da sociedade?
– As motivações do personagem são coerentes com sua história ou apenas com sua função na narrativa?
Refletir sobre essas perguntas ajuda a evitar clichês e preconceitos e a construir personagens mais autênticos e respeitosos.

Dê voz e protagonismo a personagens diversos
Uma forma de combater clichês e preconceitos é criar personagens que fogem dos papéis tradicionais e também recebem protagonismo na história. Isso significa colocar personagens de diferentes origens, gêneros, idades e contextos sociais em posições centrais, com histórias próprias e complexas.
Por exemplo, histórias em que personagens negros, indígenas, LGBTQIAP+ ou com deficiências são protagonistas e têm suas vivências exploradas de forma profunda e respeitosa contribuem para a representatividade e para o combate aos estereótipos.
Use o diálogo e a ação para mostrar a personalidade
Mostrar, e não apenas contar, é um princípio básico da boa narrativa. Em vez de descrever um personagem como “corajoso” ou “inteligente”, mostre essas características por meio de suas ações, decisões e diálogos.
Isso evita descrições superficiais e permite que o público conheça o personagem de forma mais natural e envolvente, sem cair em descrições prontas ou clichês.
Pesquise, releia, revise
Após criar seus personagens, releia seu trabalho com olhar crítico para identificar possíveis problemas.
Além disso, buscar feedbacks de pessoas diversas pode ajudar a perceber pontos cegos e melhorar a representação.
Participar de grupos de escrita, oficinas literárias ou simplesmente conversar com amigos de diferentes origens pode abrir horizontes e enriquecer a construção dos seus personagens.
Criar personagens livres de clichês e preconceitos exige esforço, pesquisa e empatia. O resultado é uma narrativa muito mais rica. Invista tempo em conhecer o universo dos seus personagens, questione suas próprias ideias e valorize a diversidade. Assim, você contribuirá para um mundo narrativo mais plural e justo, que dialoga de forma autêntica com a realidade.


