A entrevista com o personagem

A construção de personagens é um dos pilares mais importantes da narrativa. Seja em romances, contos, peças teatrais, roteiros de cinema ou de séries, personagens bem desenvolvidos são essenciais para cativar o público. Entre as muitas ferramentas utilizadas para dar profundidade e autenticidade aos personagens, destaca-se a “entrevista com o personagem”.

Essa técnica consiste em imaginar uma conversa direta entre o autor e o personagem criado. O objetivo é explorar aspectos da personalidade, da história de vida, das motivações, dos medos, dos desejos e das contradições desse personagem de maneira íntima e detalhada. A ideia é que, ao responder perguntas como se fosse uma pessoa real, o personagem revele mais de si mesmo.

Christian Slater sits down with Brad Pitt in a scene from the film ‘Interview With The Vampire: The Vampire Chronicles’, 1994. (Photo by Warner Brothers/Getty Images)

Origem e objetivo da técnica

Embora não haja um criador oficial dela, a entrevista é amplamente utilizada em oficinas de escrita criativa, aulas de teatro, cursos de roteiro e também em processos terapêuticos voltados à escrita autobiográfica ou ficcional. Escritores como Stephen King, J. K. Rowling e Clarice Lispector já comentaram, de formas distintas, sobre o processo de “ouvir” seus personagens, como se tivessem vida própria. A entrevista é uma maneira de formalizar esse processo.

O principal objetivo é aumentar a profundidade psicológica dos personagens. Personagens são mais convincentes quando têm um mundo interior, com emoções complexas, passados bem definidos e contradições humanas.

Como aplicar a técnica

O autor pode seguir alguns passos simples:

1. Escolha um personagem, pode ser o protagonista, o antagonista ou qualquer figura relevante na narrativa.

2. Defina o cenário da entrevista, onde ela acontece? Num café, numa sala de interrogatório, numa sala de estar confortável? Esse cenário pode ajudar a criar o tom da conversa.

3. Elabore uma lista de perguntas, que podem variar desde dados objetivos, por exemplo:

– Qual é o seu nome completo?

– Onde você nasceu?

– Quantos anos você tem?

– Onde você estuda/trabalha?

Até questões mais profundas, como:

– Como foi sua infância?

– Qual é o seu maior medo?

– O que você mais deseja na vida?

– Qual é o seu maior segredo?

Passando por situações cotidianas, do tipo:
– Como você é no trânsito?

– Como você reage quando chega em casa e vê um buquê de flores com seu nome na mesa?

– Quem é você no churrasco com os amigos?

– Você é uma pessoa festeira ou caseira?

4. Responda no tom do personagem. É importante que as respostas venham com a “voz” do personagem, respeitando sua forma de falar, seu vocabulário, seu nível de instrução e seu jeito de ver o mundo. Instigue-o a respostas mais completas, mas busque entender o que respostas monossilábicas podem significar.

5. Aceite respostas inesperadas. Muitas vezes, ao fazer essas entrevistas, o autor se surpreende com as respostas. Isso é sinal de que o personagem está ganhando vida própria.

Entrevistas na série Mindhunter

Benefícios para a escrita

As vantagens dessa técnica são diversas. Em primeiro lugar, ela ajuda o autor a evitar estereótipos ou personagens rasos. Ao responder perguntas complexas, o personagem precisa mostrar nuances, ambivalências e profundidade.

Além disso, a entrevista pode revelar conflitos internos que enriquecem a trama. Um personagem que diz “Minha maior ambição é ser livre, mas tenho medo de sair da casa dos meus pais” oferece uma contradição interessante que pode ser explorado narrativamente.

Outro benefício importante é a coerência interna. Ao conhecer melhor o personagem, o autor tem mais facilidade de manter suas ações e decisões condizentes com sua personalidade ao longo da história, evitando incongruências que quebraram a suspensão da descrença.

Cena do filme “Adaptação”

Aplicações além da escrita

Embora mais comum na escrita de ficção, a técnica da entrevista com o personagem também pode ser usada em outras áreas. No teatro, por exemplo, atores usam esse método para se aprofundar na psicologia dos papéis que interpretam. Em jogos de RPG (role-playing games), jogadores podem usar a entrevista para construir fichas de personagem mais ricas e realistas.

Na área da psicologia, especialmente em práticas de arteterapia ou escrita terapêutica, essa técnica pode ser adaptada para trabalhar aspectos da identidade ou explorar emoções difíceis, como se fossem “personagens internos” do indivíduo.

Personagens que Falam por Si

A entrevista com o personagem é uma ferramenta poderosa e versátil que ajuda escritores a aprofundar a construção de suas figuras narrativas. Ela permite que o autor vá além da superfície, penetrando nos aspectos mais íntimos e complexos da psique de seus personagens.

Quando bem utilizada, a técnica contribui para criar personagens mais humanos, envolventes e memoráveis, que permanecem na mente do público mesmo depois do fim da história.

A entrevista não é uma fórmula rígida, mas um espaço criativo de escuta e descoberta. Ao dialogar com seus personagens, o autor também dialoga consigo mesmo, encontrando novas camadas de significado na arte de contar histórias.

Fleabag falando para a câmera.

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