As narrativas são construídas com base em personagens que enfrentam conflitos e tomam decisões. Essas escolhas determinam o rumo da história e revelam aspectos profundos das sua motivações e dos seus valores. Organizar essas decisões em fluxogramas é uma maneira visual e lógica de compreender o percurso dos personagens, facilitando a análise crítica de suas atitudes ao longo da trama.
O uso de fluxogramas para representar decisões em narrativas é uma ferramenta útil para escritores e roteiristas. Por meio de ramificações, setas e condicionais, podemos visualizar como uma ação leva a uma consequência, e como cada ponto da jornada depende de decisões anteriores.
como usar um fluxograma?
Um fluxograma é uma representação gráfica de um processo ou sequência de ações. Utiliza símbolos padronizados, como losangos para decisões, retângulos para ações e setas para indicar um fluxo e organizar visualmente as etapas de um processo. Na criação, o fluxograma pode ser utilizado para:
– Entender o encadeamento de decisões dos personagens.
– Destacar pontos de virada da narrativa.
– Comparar comportamentos entre diferentes personagens.
– Identificar padrões de escolhas, hesitações ou impulsos.
Essa abordagem é útil para narrativas complexas, com múltiplas linhas de enredo ou com personagens que apresentam desenvolvimento psicológico detalhado. Além disso, o fluxograma pode auxiliar no estudo de temas como livre-arbítrio, destino e moralidade dentro das obras.
Exemplo prático: Macbeth, de William Shakespeare
Para ilustrar, vejamos um exemplo com a peça Macbeth. O protagonista é um general escocês que, ao ouvir uma profecia das bruxas dizendo que se tornará rei, começa a agir para concretizar esse destino.
Um fluxograma simples das decisões principais de Macbeth pode ser assim:
Ouve a profecia das bruxas → Decide contar à esposa Lady Macbeth → Influenciado por ela, decide matar o rei Duncan → Torna-se rei → Começa a desconfiar de Banquo → Manda matar Banquo → Começa a enlouquecer → Busca outra profecia → Torna-se paranoico e tirano → Morre em batalha.
Cada um desses passos poderia ser representado em um fluxograma com setas ligando as ações, e losangos indicando as decisões (“Matar ou não matar Duncan?”). Visualizar isso torna mais clara a progressão da narrativa.
Fluxogramas comparativos entre personagens
Outra forma interessante de aplicar fluxogramas é comparando dois personagens. Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, podemos comparar as decisões de Bentinho com as de Capitu, por exemplo, destacando como cada um reage aos eventos do enredo.
Bentinho:
– Apaixona-se por Capitu → Decide seguir para o seminário → Volta e se casa com ela → Tem ciúmes de Escobar → Decide observar Capitu secretamente → Interpreta gestos como sinais de traição → Decide se afastar → Torna-se solitário e amargo.
Capitu:
– Apaixona-se por Bentinho → Espera por ele enquanto ele está no seminário → Casa-se → Mostra-se uma esposa dedicada → É julgada apenas pela perspectiva do marido → Perde o filho → Vai embora.
Nesse tipo de análise, o fluxograma não apenas organiza as ações, mas também denuncia o viés do narrador e revela possíveis lacunas ou injustiças na forma como os personagens são retratados.
O fluxograma têm benefícios
O uso de fluxogramas ajuda a compreender melhor a sequência narrativa das obras, facilitando a visualização dos eventos e das consequências das escolhas dos personagens. Além disso, estimula o pensamento lógico e crítico, já que é preciso analisar e organizar racionalmente os caminhos ao longo da história.
Trata-se também de uma forma alternativa de análise textual, que permite escapar do modelo tradicional de interpretação baseado apenas em textos longos e descritivos.
Por fim, os fluxogramas podem ser utilizados como instrumentos de avaliação criativa, nos incentivando a sintetizar nossas ideias de maneira gráfica e autoral.
O Fluxograma como Espelho da Jornada
Representar as decisões dos personagens em fluxogramas é uma maneira inovadora e eficaz de compreender a estrutura das narrativas. Ao visualizar as escolhas feitas ao longo da história, podemos perceber com mais clareza os dilemas, as influências externas, os conflitos internos e os desfechos inevitáveis (ou evitáveis) de cada personagem.
Mais do que uma simples ferramenta gráfica, o fluxograma pode se tornar um verdadeiro mapa da alma de um personagem, com cada decisão marcada como uma bifurcação entre o bem e o mal, o certo e o errado, o desejo e o dever. Ao entendermos essas bifurcações, entendemos também mais sobre a natureza humana e os caminhos da narrativa.


