Criar uma história autêntica exige esforço. Para muitos, o desafio está em tirar a narrativa do campo das ideias e transformá-la em uma experiência para o público. Se o enredo está parecendo morno ou sem vida, o problema pode não estar na trama, mas na ausência de um sistema claro de valores.
Enquanto a realidade é frequentemente caótica, a ficção oferece um universo ordenado, em que cada ação possui um significado. Esse significado é construído a partir dos valores que o autor decide colocar em jogo.
Para entender como os valores podem ser a fonte de energia de uma obra, é preciso primeiro distinguir assunto de tema. O assunto é algo mais genérico: amor, justiça ou vingança. Já o tema é uma formulação específica a partir do assunto, é a visão de mundo que o autor sustenta. O tema é uma descoberta que muitas vezes só se revela plenamente após a criação do clímax.
E o que preenche o tema são os valores.
Podemos utilizar a metáfora do corpo humano para entender a narrativa:
– A trama é o esqueleto que mantém o corpo de pé.
– Os personagens são os órgãos que carregam a vida e as emoções.
– O tema e os valores são a alma que a tudo inspira. Os valores são a essência do significado.
O Jogo de Opostos
Uma narrativa não nasce de um valor isolado, mas do confronto entre forças contrárias. A faísca da conexão com o espectador nasce da reação do personagem aos fatos que o atingem, e essa reação é guiada por um sistema de crenças.
Toda história pode ser estruturada sobre um par de valores opostos. A construção da narrativa se dá no jogo entre esses extremos, por exemplo:
– Altruísmo vs. egoísmo
– Liberdade vs. aprisionamento
– Lealdade vs. traição
O conflito surge quando o protagonista é testado e precisa escolher entre esses polos.
Para entender como esses conflitos se desdobram visualmente, você pode esquematizar as decisões dos personagens em fluxogramas, que ajudam a mapear o percurso moral da história.
Indo além do óbvio
Um dos segredos de roteiristas experientes para criar camadas profundas é o valor reverso. Ele é o oposto negativo de um valor, mas disfarçado de virtude. É, por exemplo, a mentira cínica que se passa por verdade, ou a tirania que se institucionaliza sob a fachada de justiça.
Em termos de dramaturgia, o valor reverso é ouro. Ele cria antagonismos sofisticados, onde, por exemplo, a crueldade se esconde sob um discurso compassivo. Explorar o lado obscuro e mascarado do valor principal torna a história muito mais relevante.
Em Whiplash, o valor central da narrativa parece ser a excelência artística. Fletcher acredita que apenas a pressão extrema é capaz de transformar músicos comuns em gênios. Seu discurso é associado à disciplina, superação e busca pela perfeição. Porém, o filme revela aos poucos um valor reverso: a violência psicológica disfarçada de método pedagógico. A humilhação, o medo e o abuso passam a ser tratados como ferramentas legítimas de formação, criando um antagonismo sofisticado em que a crueldade se apresenta sob a máscara da grandeza artística.
Valores como Fonte de Energia da Cena
Por que algumas cenas nos deixam presos à cadeira enquanto outras nos dão sono? Uma das respostas está na oscilação de valor.
O escritor estadunidense Kurt Vonnegut desenvolveu uma teoria de representação visual de algumas histórias, mapeando o sobe e desce da sorte dos protagonistas e transformando-as em gráficos. Em nosso guia visual da jornada do herói, explicamos mais como esses gráficos ajudam a planejar o ritmo emocional da obra.
Nos seus gráficos, na parte de cima do eixo horizontal, temos os valores da “boa fortuna” (saúde, prosperidade, sucesso etc.). Abaixo, os da “má fortuna” (infortúnio, perda, derrota etc.). Uma história plana, em que o personagem permanece estável em qualquer um dos polos, carece de vitalidade.
A fonte de energia de uma cena está na alternância desses valores. Quando um valor muda de positivo para negativo, um choque de energia atinge a audiência. Se o protagonista entra em uma cena com esperança e sai dela com uma notícia devastadora, houve uma liberação de energia na narrativa. Quanto maior a amplitude dessa mudança, mais memorável será a cena.
Para ilustrar, podemos citar O poderoso chefão. No início, Michael Corleone vive em um mundo de valores humanistas. Sua fortuna está alta durante a abertura do filme, na festa de casamento.
Quando o pai de Michael sofre um atentado, a boa fortuna se transforma subitamente em má fortuna. A energia da história é ativada pelo risco de morte do patriarca e pela necessidade de Michael agir contra sua própria natureza inicial.
O midpoint é outro ponto estrutural da história importante para inverter a energia da narrativa. Quando Michael executa o policial Sollozzo no restaurante, seus valores morais despencam. Ele deixa de ser o idealista, continua em seu arco para se tornar um implacável mafioso. Essa inversão dá força ao arco de transformação do protagonista.
Dê aos Personagens Valores Contraditórios
Personagens totalmente coerentes tendem a ser planos e artificiais. Para dar humanidade ao protagonista, é essencial “sujá-lo” com falhas e contradições.
Um herói puramente altruísta é muitas vezes difícil de se conectar com o público. Experimente dar a ele um traço de intolerância ou arrogância. Da mesma forma, um antagonista é mais perigoso e fascinante quando possui virtudes, como a lealdade ou o afeto por alguém próximo. Ou seja, equilibre virtudes no antagonista e falhas no herói.
Para organizar essas nuances, você pode utilizar um diagrama de personagens. Colocar o valor principal e seu oposto no centro da análise permite que você “abra o leque” e encontre sentimentos intermediários.
O que o protagonista quer vs o que ele precisa geralmente está em conflito direto com seus valores. Ao forçar o personagem a escolher entre polos em um momento de crise, você cria dilemas morais potentes, garantindo que sua história seja uma jornada repleta de significado e energia.
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FAQ
Como criar conflitos mais fortes usando valores?
Conflitos ganham força quando personagens defendem visões de mundo incompatíveis. Em vez de apenas criar obstáculos externos, o ideal é colocar valores opostos em choque, obrigando o protagonista a fazer escolhas difíceis.
Personagens contraditórios deixam a história mais realista?
Sim. Personagens excessivamente coerentes tendem a parecer artificiais. Contradições internas, falhas morais e desejos incompatíveis tornam o comportamento mais humano e ajudam a criar dilemas dramáticos mais interessantes.
Toda cena precisa de uma mudança de valor?
Nem toda cena exige uma grande virada, mas cenas memoráveis normalmente apresentam algum tipo de transformação emocional, moral ou prática. Quando um personagem ganha, perde ou descobre algo importante, a narrativa ganha energia.
Como aplicar valores em séries e histórias longas?
Narrativas longas costumam desenvolver diferentes sistemas de valores ao longo dos episódios ou temporadas. Isso permite aprofundar conflitos morais, criar novas tensões entre personagens e renovar a energia da história continuamente.


