Kurt Vonnegut foi um dos escritores mais originais do século 20, conhecido não só por sua prosa afiada e bem-humorada, mas também por sua maneira de explicar como as histórias funcionam.
Entre suas ideias mais instigantes, está a proposta de que toda narrativa pode ser representada graficamente por meio de uma curva: uma linha que sobe e desce conforme os altos e baixos da vida do protagonista. Neste texto, exploramos as famosas “curvas de histórias” de Vonnegut e o que elas ainda ensinam sobre narrativa, emoção e humanidade.

O que são os gráficos de Vonnegut?
Vonnegut sugeriu que as histórias humanas tinham formas reconhecíveis, e que poderiam ser desenhadas como gráficos simples com dois eixos: o eixo vertical indica a situação do protagonista, indo de “má sorte” a “boa sorte”, e o eixo horizontal representa o tempo. A partir disso, ele começou a desenhar curvas que revelavam os caminhos emocionais mais comuns das histórias.
Em suas palestras, especialmente em uma conhecida apresentação na Universidade de Nova York nos anos 1980, ele desenhou essas curvas com giz. O charme da sua ideia está na sua simplicidade e na maneira como ela torna tangível algo que sentimos intuitivamente: histórias nos afetam por causa das emoções que despertam — e essas emoções seguem um ritmo.

Esses formatos não são fórmulas rígidas, mas esquemas que ajudam a entender por que algumas histórias ressoam tão profundamente.

Exemplos clássicos das curvas de Vonnegut
Vonnegut mapeou diversas formas narrativas recorrentes e fez gráficos a partir delas. Cada uma representa um tipo de trajetória emocional que aparece frequentemente nas histórias que contamos. A seguir, veja as mais conhecidas:
“Do Nada ao Triunfo” (Man in Hole)
Essa é talvez a curva mais clássica. Um personagem começa em uma situação neutra ou ruim, cai em um problema ou conflito (o “buraco”) e, com esforço ou sorte, supera os obstáculos e termina em uma situação melhor do que no início. É uma narrativa comum em filmes de superação, aventuras e dramas pessoais.
Exemplos: Rocky, Harry Potter, Eragon, À Procura da Felicidade.
“Garoto Encontra Garota” (Boy Meets Girl)
Um personagem encontra o amor (ou algo muito positivo), vive um período de felicidade, mas então comete um erro, perde o que conquistou e precisa lutar por redenção. Ao final, consegue recuperar o que perdeu, transformado pela jornada. É uma estrutura muito comum em comédias românticas.
Exemplo: Uma linda mulher. Na cena final, o protagonista, arrependido, reconquista o amor perdido com flores na mão e uma proposta de futuro.
“De mal a pior” (From bad to worse)
O protagonista parte de uma situação ruim e mergulha em desgraças sucessivas, sem redenção. Cada tentativa de melhora é frustrada, cada esperança, esmagada. A curva desce sem parar ou estabiliza em um território sombrio. É a trajetória da tragédia inevitável, onde as forças externas ou falhas internas arrastam tudo para baixo.
Exemplos: Réquiem para um Sonho (quatro vidas destruídas pelo vício); 1984 (Winston vencido pelo totalitarismo); O Iluminado (Jack Torrance sucumbe à loucura).
“Cinderela”
Essa curva começa com a protagonista em uma situação difícil, explorada, rejeitada ou oprimida. A história sobe quando surge uma oportunidade (como o baile), mas logo há uma queda brusca (ela perde tudo novamente). Ao final, há uma recuperação surpreendente, que leva a um final feliz. O que a distingue é a oscilação emocional intensa: uma montanha-russa narrativa.
Exemplos: Cinderela, O Diabo veste Prada, Billy Elliot.
“Criação” (Creation Story)
Essa curva começa do nada absoluto e sobe progressivamente até um estado positivo. Não há grandes quedas ou conflitos dramáticos — apenas uma ascensão constante. É a forma das histórias de origem, onde algo surge e se desenvolve até alcançar sua forma final.
Exemplos: histórias bíblicas de criação, narrativas de fundação de empresas ou movimentos sociais.
“O Velho Testamento” (Old Testament)
Vonnegut descreve essa curva como uma montanha-russa emocional. A humanidade recebe dádivas de um ser supremo, mas é subtamente destruída ao sabor das mudanças de humores desse ser divino. Os altos e baixos são imprevisíveis.
Exemplos: séries de TV longas, como Game of Thrones, sagas familiares extensas, biografias complexas.
“O Novo Testamento” (New Testament)
Assim como no Velho Testamento, a narrativa mostra queda extrema, mas, dessa vez, ela é seguida de ressurreição ou redenção transcendente. O mesmo Deus que destrói agora também dá a vida. O protagonista morre (literal ou simbolicamente) e renasce em estado superior, muitas vezes sacrificando-se pelo bem maior. A curva mergulha até o fundo e salta para o topo em movimento vertical, celebrando a transformação. É a trajetória do mártir, do herói redentor.
Exemplos: Jesus Cristo (crucificação e ressurreição).
“Qual é o lado de cima?” (Which way is up?)
A história é ambígua, e embaralha os sinais de “bom” e “mau”. Nela, eventos que parecem positivos revelam-se desastrosos e vice-versa, até o fim permanecer ambíguo. A curva ziguezagueia refletindo ironia, relativismo ou a impossibilidade de julgar a sorte do personagem com certeza. É a narrativa em que o espectador nunca sabe se deve comemorar ou lamentar.
Exemplos: A origem (final propositalmente inconclusivo); Onde os fracos não têm vez (destino implacável sem redenção clara).
A genialidade por trás da simplicidade
Vonnegut foi inovador ao transformar a estrutura complexa do desenvolvimento narrativo em algo visual e acessível. Ele misturou humor e descontração ao apresentar esse modelo, mas seu ponto era sério: histórias seguem padrões, e entender esses padrões pode nos ajudar a criar e analisar narrativas com mais profundidade.
Sua abordagem também foi uma forma de desafiar a ideia elitista de que literatura só pode ser compreendida por especialistas. Com seus gráficos, qualquer pessoa com um lápis e papel poderia mapear uma história.
Por que isso ainda é relevante hoje?
Em um tempo em que textos gerados por inteligência artificial e algoritmos estão presentes até na escrita de roteiros e livros, as curvas de Vonnegut ganham nova vida. Empresas de storytelling e pesquisadores de ciência de dados vêm estudando milhares de histórias para mapear seus “padrões emocionais”, algo que Vonnegut já fazia a mão, com bom humor e genialidade.
Além disso, a ideia das curvas nos ensina a reconhecer que uma boa história não precisa ser complicada. Às vezes, uma curva simples, como a do “homem no buraco”, pode ser poderosa se bem contada. Isso é especialmente útil para novos escritores e roteiristas: entender a estrutura emocional da história ajuda a manter o público engajado.
Aplicações práticas para escritores e leitores
Se você é escritor, experimente pegar sua própria história e desenhar um gráfico da sorte do protagonista ao longo do tempo. Onde estão os picos? Onde estão os vales? Está muito linear? A história está imprevisível demais? O gráfico pode revelar ritmos que talvez você não perceba apenas relendo o texto.
Se você faz parte do grupo do público, tente aplicar esse modelo aos seus livros ou filmes favoritos. Isso ajuda a entender por que algumas histórias nos tocam profundamente, enquanto outras parecem monótonas. Essa prática também torna a leitura mais interativa e crítica.
limites do modelo
Apesar de sua popularidade, os gráficos de Vonnegut não são uma fórmula que serve para todas as histórias. Eles simplificam bastante os elementos emocionais, filosóficos e culturais que compõem uma narrativa. Além disso, nem toda história segue um arco claro, especialmente em narrativas pós-modernas, fragmentadas ou experimentais.
Ainda assim, o valor do modelo não está em sua precisão ou não, mas sim em sua capacidade de fazer com que pensemos em estrutura, ritmo e desenvolvimento de uma maneira visual e intuitiva.
Kurt Vonnegut foi mais do que um romancista brilhante. Ele também foi um pensador criativo que queria entender e nos ajudar a entender por que contamos histórias da maneira que contamos.
Seus gráficos não são apenas uma piada visual ou uma curiosidade de palestra. São uma ferramenta poderosa para escritores, leitores, professores e amantes das histórias em geral.
Ao transformar narrativas em curvas, Vonnegut nos lembrou que todas as histórias, no fundo, são sobre mudanças, para melhor ou para pior, e que essas mudanças, quando bem contadas, nos ajudam a compreender melhor a nós mesmos.


